Domingo, 17 de março de 2002.

  Entrevista com José Genoino

Introdução por Nicky

José Genoino é um deputado polivalente. O início de sua carreira política data dos anos de ditadura militar, aonde integrou a diretoria da UNE (União Nacional dos Estudantes), fazendo resistência ao regime ditatorial. Participou da preparação da Guerrilha do Araguaia, e por isso ficou preso durante cinco anos.

Após ser anistiado em 1979, ajudou a fundar o PT e em 1982 foi eleito para seu primeiro mandato. Desde então, foi reeleito mais quatro vezes, sendo nesta última eleição o deputado federal mais votado do país.

Genoino, assim como Marta Suplicy, é uma das poucas vozes ativas na política brasileira a defender abertamente os direitos dos homossexuais. "Houve um fato que ainda me toca muito. Às vezes, penso: como é que eu não me revoltei na época? Dois presos, no Hipódromo, tinham uma relação de homossexualismo e eram isolados pelos demais presos políticos. Até hoje me revolta ter visto aquilo e não ter protestado, não ter quebrado o pau".

Hoje Genoino não se intimida ao falar sobre o assunto. Ele é o provável candidato do PT ao governo de São Paulo nas eleições deste ano. Veja aqui a entrevista concedida pelo deputado ao PAGLA - Projeto de Apoio a Gays e Lésbicas Adolescentes.



PAGLA - Dizem que quando um eleitor disse pro senhor que não lhe daria mais o voto, por que o senhor defendia os homossexuais, o senhor teria respondido: "Pois tenho muito orgulho de não ter o seu voto". No entanto o senhor foi o deputado federal mais votado do Brasil. Acha que os defensores dos movimentos gays ainda precisam temer o boicote dos eleitores, ou isso já é coisa do passado?
Genoino - Infelizmente ainda há muito preconceito e intolerância. Porém não é o caso de temer boicotes ou coisas do gêneros e sim enfrentar de frente toda e qualquer manifestação preconceituosa.

PAGLA - O senhor acha que o projeto da Deputada Marta Suplicy, de Parceira Civil, tem chances de ser aprovado? O que o senhor acha dele e do substitutivo do Roberto Jefferson?
Genoino - Já combinei com a Marta que tocarei o Projeto na Câmara e ele tem grandes chances de ser aprovado. Vai depender em grande parte da mobilização da opinião pública. Concordo integralmente com eles.

PAGLA - O senhor tem algum parente homossexual? Se o seu filho lhe dissesse amanhã que era gay, qual seria sua maior preocupação? Você acha que os pais hoje em dia estão mais preparados para encarar essa situação?
Genoino - Que eu saiba não. Caso estivesse numa situação destas, minha maior preocupação seria com a discriminação que ele sofreria. E acho que os pais ainda não estão preparados. O preconceito ainda é muito forte.

PAGLA - Recentemente ouvi o seguinte caso: Um rapaz de 15 anos, após ser expulso de casa pelo pai, que o abusava sexualmente, foi viver na rua, onde foi estuprado, e após isso foi recolhido a uma instituição, onde continua a ser abusado pelos outros meninos. Isso porque as instituições que cuidam dos menores, não apenas dos infratores, estão completamente despreparadas para cuidar da questão do homossexualismo na adolescência. Existe uma esperança de melhora?
Genoino - Esta questão está inserida na falência total do modelo que hoje temos para o trato de menores infratores. A FEBEM e organizações do gênero não dão mais conta desses imensos problemas. Devemos pensar uma reformulação completa no sistema. Já existem diversos projetos neste sentido. Acho que a saída é esta.

PAGLA - A homofobia também ataca violentamente nas escolas brasileiras. Como melhorar o preparo dos corpo de docentes e outros profissionais para lidar com a questão da discriminação, do suicídio e da violência física causadas pela homofobia? As escolas estão preparadas para discutir temas atuais, como educação sexual, gravidez, aborto e homossexualismo?
Genoino - Não. As escolas e seus profissionais não estão preparados para enfrentar estes temas. Neste caso, também já existem diversos projetos e estudos, entre eles, o de tratar a sexualidade como tema de currículo escolar.

PAGLA - Estatísticas dizem que adolescentes homossexuais têm 3 vezes mais chance de tentar o suicídio que seus pares heterossexuais. Isso representa, aproximadamente, três suicídios por dia, de acordo com estatísticas norte-americanas. Por quanto tempo o Brasil vai escolher fechar o olhos para esse drama?
Genoino - Bom... Na verdade quem deve obrigar o país a enxergar esta realidade são os políticos, os movimentos sociais e a opinião pública. Só um grande debate envolvendo toda a sociedade vai fazer com que encaremos estes dramas e busquemos soluções.
 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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