Domingo, 17 de março de 2002.

 

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  Saindo do Armário

Por Nicky

"Sair do armário". Esta expressão, inventada pelos americanos para se referir à atitude de revelar sua orientação (homo) sexual não poderia ser melhor. Afinal, existe lugar mais chato de se estar do que dentro de um armário? Pois é, e a sensação de estar lá é mesmo parecida com a de manter sua orientação sexual escondida de todo mundo: faz você se sentir triste, solitário, e acreditando que não pode contar com ninguém.

Em compensação, sair de lá é um alívio tão grande que só mesmo experimentando para saber. Você passa a descobrir que existem sim, pessoas com as quais você pode compartilhar suas angústias, seus medos e seus anseios, e que não vão te rejeitar ou te maltratar por isso. E nada melhor do que poder desabafar com alguém de vez em quando, não é mesmo?

Só que a saída do armário tem que ser feita com cuidado. Quando acontece com a pessoa certa, pode trazer um imenso alívio. Do contrário, pode acabar sendo apenas mais uma fonte de dor de cabeça. Então, antes de sair revelando seu segredo desenfreadamente para todo mundo, que tal algumas dicas de quem já tem experiência no assunto?


Para os amigos

Muitas pessoas se sentem mais à vontade de conversar sobre certos assuntos com os amigos. Portanto, como primeiro passo, você pode decidir contar para alguns deles que sejam mais íntimos. Neste caso, a dica básica é: escolha com cuidado os amigos para quem você vai contar.

À primeira vista, pode parecer fácil. Mas numa escolha errada, duas coisas desagradáveis podem acontecer: ele pode se afastar de você, ou pior ainda, pode espalhar seu segredo para outras pessoas indesejáveis. Ambos os casos só vão acontecer se você sair do armário para a pessoa errada, ou seja, um falso amigo. Por isso, muito cuidado com sua escolha.

Veja na tabelinha abaixo algumas dicas para "testar" a confiabilidade de uma pessoa:

Seu amigo ou amiga é a favor da homossexualidade? Seria péssimo se, justo ao sair do armário para o seu amigo, você descobrisse que ele é um belo de um homofóbico. Antes de fazer isso, tente descobrir, discreta e casualmente, qual é a opinião dele sobre este assunto.
Seu amigo ou amiga sabe guardar segredo? Alguma vez você já contou algum segredo para ele que, mais tarde, outra pessoa ficou sabendo (e não por você)? Fique de olho para não se abrir para este tipo de fofoqueiro.
Seu amigo ou amiga é "maria-vai-com-as-outras"? Se ele se deixa influenciar facilmente, sob pressão dos outros pode acabar contando o que não deve, mesmo sem intenção.
Você realmente conhece o seu amigo ou amiga? Não só é importante saber as respostas das quatro perguntas acima como, obviamente, é importante que elas estejam corretas. E para ter certeza disto, só mesmo conhecendo muito bem a pessoa.

Se o seu amigo ou amiga foi aprovado em todos os "testes", então parabéns: aparentemente ele está apto a ser uma das pessoas que esperarão você do lado de fora do armário.


Para os pais

Chegamos num ponto crucial da saída do armário: os pais. É impressionante como algumas coisas são difíceis de serem ditas, até mesmo para aquelas pessoas que literalmente nos conhecem desde que nascemos. Parece que isto não só não facilita como torna as coisas ainda mais difíceis!

Revelar para os pais a sua orientação sexual é, sem dúvida, a tarefa mais penosa deste processo. Nada pior do que frustrar os sonhos da mãe de ter uma "linda nora (ou genro) e um time de futebol de netos" (apesar de que este último é perfeitamente viável). Ou de estragar a graça do pai de ter um "filhão, garanhão, cheio das minas e blá blá blá...", ou ainda de ter uma "filhinha, meiga, frágil, delicada e etc, etc...". Os pais, cheios de planos e expectativas para os filhos, às vezes não contam com alguns destes fatores inesperados.

Mas lembre-se: acima de tudo, o que seus pais realmente querem é ver você feliz, ainda que não exatamente da maneira que imaginavam.


Contar ou não contar?

Nem todos os pais estão preparados para descobrirem a homossexualidade do filho. Como qualquer outra pessoa, eles podem ter reações muito negativas. Alguns deles, mais extremistas, podem até chegar a expulsar o filho de casa. E decididamente não é isso que nós queremos que aconteça.

Portanto, o primeiro passo é decidir se você deve ou não fazer esta revelação para eles. Fazer isto nem sempre é a melhor opção, por isso reflita com calma. Em primeiro lugar: qual a postura deles sobre a homossexualidade? Eles são mais liberais ou mais conservadores? Quando o assunto vem à tona, eles costumam defender ou criticar? E o mais importante: o que eles dizem que fariam caso o filho fosse gay ou a filha lésbica?

Se você conhece bem os seus próprios pais, vai ser fácil responder às perguntas acima. Caso contrário, a dica é "sondar": tente trazer o assunto para a conversa, casualmente. Sempre que estiverem falando sobre isso, procure ouvir tudo o que eles têm a dizer a respeito. Dessa forma você conseguirá captar a opinião deles sem que percebam as suas "segundas intenções".

A partir daí, você poderá tirar suas conclusões. De um modo geral, é claro que é preferível sair do armário para pais liberais do que para pais conservadores. Mas é tudo uma questão de conhece-los ao máximo: fazendo isso, você provavelmente terá uma boa noção de como será a reação deles. Na dúvida, continue usando a "sondagem" descrita acima até que tenha informações suficientes para tirar uma conclusão.


Se você decidiu não contar...

... neste caso, a dica é esperar até que você saia de casa e seja responsável por si mesmo. Quando isto acontecer, você poderá optar por contar ou não para eles. Algumas pessoas preferem literalmente levar o segredo para o túmulo, pelo menos no que diz respeito aos pais. Outras contam somente depois de adultas - o que não é uma garantia de que eles irão entender, apenas é uma forma de evitar um conflito desnecessário dentro de casa, durante o tempo em que você ainda morar com eles.

Em ambos os casos, você vai precisar de muita paciência. Mas se você tem mesmo certeza de que eles não conseguirão compreendê-lo neste momento, estas opções realmente são melhores do que criar uma desavença familiar.


Se você decidiu contar...

... então aqui vão algumas dicas de como sair do armário da melhor forma possível:

  • Vá "preparando o terreno" durante bastante tempo. Dê algumas indiretas que indiquem aquilo que você está querendo contar; puxe o assunto com mais freqüência, etc. Faça isso o quanto achar necessário: o choque pode ser amenizado se eles já estiverem imaginando o que vão descobrir
  • Escolha um dia em que eles tiverem bastante tempo disponível, pois vocês provavelmente terão muito o que conversar
  • Nunca saia do armário durante uma discussão, por impulso ou simplesmente para agredi-los; o resultado é sempre desastroso
  • Se preferir, saia do armário primeiro para sua mãe, e só depois para o seu pai, ou vice-versa. Conversar com um de cada vez pode ser mais fácil do que encarar os dois de uma tacada só
  • Mesmo que seus pais sejam super liberais, a reação inicial quase sempre é um choque. Não se assuste se sua mãe, ou mesmo seu pai, desatarem a chorar. Também não se assuste se eles disserem algumas coisas que te magoem - sob fortes emoções, as pessoas dizem coisas que não são verdade
  • Mantenha a calma, respire fundo e dê tempo para que eles possam fazer o mesmo. Todos vocês estarão muito emocionados e não é bom ser afobado nessas horas
  • Explique os seus sentimentos e o seu ponto de vista da maneira mais sóbria possível
  • Muitas vezes, a reação imediata deles pode ser completamente diferente da que você estava imaginando (por exemplo, eles podem afirmar que não irão aceitar, quando você pensou que eles aceitariam numa boa). Se isto acontecer, não se assuste: quase sempre eles fazem isto porque estão sob o efeito do choque inicial. Muito provavelmente, eles voltarão atrás em alguns dias ou até mesmo em algumas horas
  • Dê a oportunidade para que eles também exponham o ponto de vista deles, por mais absurdo que seja. Lembre-se que essa é apenas a primeira de muitas conversas que vocês terão sobre o assunto, e que mais tarde eles podem mudar de idéia sobre muitas coisas
  • Deixe claro (se este for o caso) que nada irá fazer com que você mude sua orientação sexual, e que você apenas gostaria que eles entendessem e respeitassem. Se eles propuserem um tratamento no psicólogo, explique que isto até poderá ajudar, mas não irá mudar a situação. Se eles propuserem qualquer outro tipo de tratamento, explique que nenhum deles têm comprovação científica e podem inclusive ser perigosos para sua saúde
  • Pode ser que algumas coisas não fiquem resolvidas logo na primeira conversa. Se preferir, deixe para tratar estes assuntos depois que eles tiverem tido tempo de pensar melhor na situação
  • No período que se seguir à sua saída do armário, pode ser que eles fiquem estranhos, até distantes. Neste caso, seja compreensivo e paciente; as coisas voltarão ao normal depois que eles tiverem tido tempo suficiente para refletir sobre tudo

Nenhuma saída do armário é igual à outra. Para algumas famílias, tudo pode ser mais tranqüilo, e pode até ser que os pais entendam tudo logo de cara. Para outras (e este é o caso da maioria), demora um tempo até que eles absorvam o impacto. O processo pode ser bastante simples, ou bastante traumático. Muita coisa pode variar.

Mas o importante é que, no fim das contas, na grande maioria das vezes, os pais acabam compreendendo tudo. E a sensação de alívio que vem com este "finalmente" é algo que compensa toda a turbulência pela qual você pode passar. Você não precisará mais fingir para as pessoas que ama, não terá mais um segredo incomodando permanentemente. Você terá, enfim, saído da escuridão do armário para a luz do dia do lado de fora.

 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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