Domingo, 17 de março de 2002.

  Ajuda psicológica

Por Rafael

E aí pessoal do XTeens, blz? Bom, um amigo me mandou o link do seu site, primeiramente preciso dizer que já está nos meus Favoritos e que fiquei surpreso e muito feliz por finalmente ver um portal tão completo e tão bem feito (tanto no conteúdo quanto no apelo visual, diagramação, textos, o FAQ sobre homossexualismo/bissexualismo, tudo mesmo) aqui no Brasil voltado pra juventude GLS, acho que uma iniciativa dessas não pode ser menosprezada e merece toda a atenção, ainda mais em um meio como a web. :)

Bom, agora falando sobre uma das matérias no site... só tenho que elogiar o que vocês escreveram sobre o apoio psicológico ao jovem. Óbvio que não no sentido de "mudar" a orientação sexual, mas no sentido de ajudar a compreender melhor o que é essa confusão de sentimentos que pode assustar muitos quando aparece pela primeira vez. Esse é, ou melhor, foi o meu caso, hoje tenho 20 anos e já me sinto um tanto seguro quanto ao fato de ser um cara gay e ter que lidar com alguns preconceitos e tudo mais, mas o meu "início" foi uma barra. "Descobri" (entre aspas mesmo, porque na verdade seria "vesti a carapuça", porque já sabia disso há muito tempo) que sou gay aos 18 anos, e isso ocorreu numa fase bem conturbada, 1º ano de facul, toda aquela mudança de ambiente, novos amigos, mais responsabilidades... E quando fui buscar algum apoio maternal, acabei causando uma confusão em casa (contei num momento onde todos estavam nervosos), e depois dessa só queria buscar ajuda pra poder suportar toda aquela barra e a tristeza que eu sentia por não ser aceito em casa. Foi quando decidi procurar por ajuda psicológica.

A minha psicóloga atual (que é a 3ª que eu procurei já) é a melhor pessoa que poderia ter encontrado pra esse apoio, eu estava entrando numa enorme depressão, e acho que se não fosse principalmente pelo diálogo aberto, recíproco e sem pré-conceitos entre nós, eu hoje não estaria nem escrevendo este e-mail. Minha primeira escolha não foi muito acertada, não havia um ritmo legal entre eu e a psicóloga, apesar dela não ter nenhum preconceito ou coisa do tipo. A segunda escolha foi o erro completo: o psicólogo em questão à primeira vista era um sujeito compreensível e que parecia estar aberto a todo e qualquer diálogo. Mas foi só entrar no assunto sexualidade pra que a máscara dele caísse: ele me apresentou estatísticas absurdas sobre relações sexuais entre caras gays, números estrambólicos sobre como a AIDS é maior no meio gay, tentou me persuadir a tentar o "caminho hétero". Foram apenas 3 sessões, mas foram sessões que me deixaram um tanto traumatizado, porque quando tudo o que eu queria e precisava era de algum apoio, eu me sentia como se levasse pedradas a cada vez que dissesse que era gay e que não sentia (e não sinto) atração por garotas. Até hoje lembro de tudo o que ele me disse e me sinto triste, e gostaria de saber se há algo a fazer em casos assim, tipo um disque-denúncia ou como entrar em contato com o Conselho de Psicologia, me senti tremendamente lesado, pra não dizer ofendido, por ter sido atendido por um psicólogo com tal discurso, e acho que não é esse o tipo de profissional que deve estar atendendo outros jovens que como eu só precisam de apoio e orientação, não de um tratamento de reversão sexual à força.

Atualmente já melhorei muito da minha crise depressiva, e acho que em breve poderei finalmente sair do armário de uma forma menos conturbada pra minha mãe e pro meu pai. Mas se tivesse continuado com o segundo psicólogo que encontrei, não tenho certeza se hoje eu me sentiria normal e se eu estaria sendo honesto quanto ao que sou e sinto, não só mentindo pras outras pessoas como pra mim mesmo.

Rafael, 20 anos - São Paulo - SP
 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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