Domingo, 17 de março de 2002.

  Estado: livre

Por HB

Tenho 17 anos e sei que sou bissexual (muito mais gay que hetero) desde meus 12 anos, que foi quando eu assumi pra mim mesmo. Isso foi em 97, mas só fui contar pra alguém "real" (uso esse termo para diferenciar das pessoas que nós falamos pela internet) no carnaval de 2001.

Vontade sempre tive, afinal, não tenho sangue de barata para sobreviver pacificamente com a mentira. Muito pelo contrário: odeio mentir. Mas nós, homos e bissexuais não temos muita escolha nessa área.

Ao mesmo tempo que tinha a vontade de contar pra alguém, tinha a insegurança de não saber quem iria aceitar bem. Com o tempo, Lúcia e Cínthia foram as amigas que estavam entre as pessoas que eu tinha mais vontade de contar, ao mesmo tempo que eu acreditava serem as que teriam as mais pacíficas reações.

Estávamos na praia com outros amigos. Mas todos tinham saído e só ficamos no apartamento Lúcia e eu. Eu dei uma olhada no espelho, já nervoso, e pensei que aquele seria o "tão esperado" dia - com aquelas reflexões básicas, sabe como? Eu não tinha programado nada, mas me baixou uma energia que eu sentia que tinha de ser naquele momento. Falei pra ela que tinha que lhe contar uma coisa e que fôssemos dar uma caminhada na praia.

Já lá na praia, ela ficou bem curiosa ao mesmo tempo que meu coração tava no compasso da bateria da Mangueira. Quase saindo pela boca. E então eu decidi que ia dizer. Muita demora e pensamentos depois, saiu o "Eu... sou...". Depois foram outros quinhentos, mas finalmente consegui falar "bissexual".

No mesmo segundo que falei, parecia que tinham tirado um peso enorme da minha cabeça. E antes de ver a reação dela, eu já tinha acumulado uma alegria enorme dentro de mim. Parecia que tinham me libertado de alguma prisão.

A reação dela foi super na boa. E ela até me disse que não esperava (o que quer dizer que fui um bom mentiroso). Conversamos bastante aquele dia. Eu me abri como se nunca tivesse me aberto com ninguém. Não que antes fosse uma pessoa fechada, mas sobre esse tipo de assunto eu só conversava virtualmente mesmo.

Essa foi uma das melhores experiências da minha vida. Me ajudou a trazer essa realidade pra minha vida mesmo. Porque eu trouxe isso pruma amiga que eu via todo dia. E ainda é super bom ter alguém fora do círculo gay pra conversar sobre isso.

Hoje, um ano e uns 2 meses depois, já contei pra 3 pessoas (uma delas é a Cínthia) depois de ter contado pra Lúcia, e me sinto mais livre do que nunca. O apoio que recebi dos meus amigos, apos ter contado a eles, é impagável! Já ouvi muita gente dizendo que não tem vontade de dividir isso com os amigos fora do círculo gay, e não posso julgar ninguém. Só sei que comigo, me incomodava o fato de não ser 100% verdadeiro com amigos que eram completamente verdadeiros comigo. Mas aí, cada um com sua consciência, né?

*não usei os verdadeiros nomes
 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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