Domingo, 17 de março de 2002.

  Meus fantasmas

Por Angel

As estações de metrô pareciam intermináveis. Caramba, ainda estou na Sé, tenho ainda muitas estações....

Eu tremia todo, era a primeira vez que eu iria conhecer um gay, a primeira vez que ia sair com alguém que sabia que eu sou gay. Mas a maior ansiedade era porque eu ia conhecer um grupo gay! Eram várias pessoas com a mesma orientação sexual que a minha e onde eu poderia ser eu mesmo! E o que havia de mal nisso? NADA! Mas pra um tímido nato, havia sim. Eu teria que conversar! Me abrir...

Havia conhecido esse pessoal na net mesmo, aquelas listas de discussão sabe? Estava meio de rolo com um cara da net e ele me indicou a lista. Entrei nela no final de novembro de 2000, porém só comecei a "falar" lá em dezembro e no meio de dezembro estava eu, indo conhece-los.

Pronto, cheguei! Estação Santa Cruz, a hora de todo o drama. As portas do metrô abriram e eu sai, com muito receio e louco de vontade de voltar, mas sai.

Ao subir, encontrei um grupo de garotos encostado no canto da estação, pensei "São eles". Sem erro, cheguei, me apresentei e tentei me infiltrar nos assuntos, aos poucos outras pessoas foram chegando.

Não era um grupo muito grande (perto do que ele se tornou depois), mas estava muito legal o meu primeiro encontro com eles, tudo era novo!

O encontro passou como se fosse realizado em 10 segundos. Na volta pra casa, vim pensando em como seria bom confiar pelo menos aos meus amigos mais íntimos sobre minha orientação.

No dia seguinte, fui trabalhar normalmente, cheguei em casa e fui pra minha escola conversar com o pessoal, pois mesmo estudando de manhã, tenho amizade com o pessoal dos dois períodos.

Chamei meu melhor amigo, sentamos nos bancos no pátio e disse que tinha algo pra contar-lhe. Comecei:

- Ri, sei que é estranho eu te falar isso, você pode duvidar, mas vou lhe contar pois preciso da sua ajuda - ele me interrompeu.

- Fala logo caramba, pára de enrolar!

- Eu sou gay!

Ele me olhou com "aquela" cara, que sabemos qual é quando contamos pra alguém, e ficou pálido. Eu o acalmei:

- Calma, eu nunca fiquei com nenhum cara - ele suspirou de alivio, eu continuei - mas estou te contando porque pretendo ficar e ainda mais, quero contar pra minha mãe.

Uma das minhas amigas chegou de supetão e sem que eu percebesse ouviu alguma coisa da conversa, porém sem entender, sentou-se conosco como se não estivéssemos tendo uma conversa muito importante. O Ricardo olhou pra mim e disse:

- Conversa com ela também, da mesma forma que eu posso te ajudar ela também pode.

Eu estava nervoso, não estava acreditando que meu melhor amigo, o garoto que passei boa parte da minha infância, o meu irmão (nos chamávamos assim desde a 8ª série) estava completamente normal depois de eu lhe contar que eu sou gay e ainda mais, me apoiando a confiar nas pessoas ao meu redor. Eu disse:

- Dani, eu sou gay!

Ela me olhou atônita, riu, levantou, andou e sentou de novo dizendo:

- Tá, e o céu é verde! Ah, dá licença, você ficou com minha melhor amiga!

- Fiquei com sua melhor amiga uma vez e inexplicavelmente não quis mais nada com ela, assim como aquela menina que fiquei quando estávamos fazendo a peça de teatro esse ano, e assim como todas as meninas que fiquei até hoje; inexplicavelmente não quis mais nada com elas depois de ficar! Por que? Simples, eu sempre soube o que eu sou, só não me aceitava. Me tranquei durante um bom tempo por que? Sou fechado dessa forma por que? Eu não me aceitava! Hoje eu me aceito, estou maduro e quero ser feliz.

Tanto eles como eu estávamos com os olhos cheios de lágrimas, chorei um pouco, mais como um desabafo e disse que queria contar pra minha mãe.

Os dois me abraçaram, eu parei de chorar. Disse que queria contar muita coisa pra eles ainda, sobre o meu encontro com o pessoal da lista, o cara que eu estava interessado, minha dúvidas, meus fantasmas.

Levantamos pra ir embora, fomos à uma pastelaria ali perto e ficamos conversando sobre o meu "eu" até quase meia-noite.

Não me arrependo de ter contato à eles e se eu soubesse que seria tão bom, teria contado antes e acabado bem mais cedo com muitos dos meus fantasmas internos; porém cada caso é um caso e nunca podemos adivinhar a reação das pessoas quando contamos algo do tipo "EU SOU GAY!", por isso selecionei a dedo todos os que sabem de minha orientação, mas isso já é outra história...

Beijão pra todos!!!
 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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