Domingo, 17 de março de 2002.

  O que fazer se seus pais insistem em levar você a um psicólogo

Por Piteco

"Eu tinha acabado de sair do armário. Ou melhor, tinha acabado de ser tirado a força do armário. Meus pais andaram meio desconfiados, achando que eu podia ser gay. Sempre vinham com o mesmo papo. 'Você nunca sai com garotas. Você está bem?' Eis que um dia resolveram mexer no meu computador, provavelmente atrás de algo que os deixassem mais tranqüilos - ou não. Pois é, quem procura acha. E acharam! Eu tinha gravado umas fotos de um site que eu estava visitando na noite anterior. Foi aí que surgiu a idéia: 'Filho, você precisa de ajuda profissional. Queremos que você vá a um psicólogo.' Definitivamente, eu não sabia o que fazer. No meio da confusão acabei aceitando ir." Renato, 16 anos.

Esse relato mostra a realidade de muitos adolescentes que saem - ou são tirados - do armário. Diante dessa situação, a grande maioria dos jovens não sabe o que fazer, e muito menos o que esperar de um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra. Para sair vivo de toda essa situação, o melhor a fazer é tentar entender o que passa na cabeça dos seus pais e também do seu mais novo psicólogo.

Quando um pai ou uma mãe descobre que seu filho é homossexual, uma reviravolta acontece na cabeça deles. Isso acontece porque, ao longo da história a homossexualidade foi associada a uma série de valores negativos. Um exemplo disso é a idéia de que todo homossexual tem, necessariamente, comportamentos de risco. Pois bem, os pais, ao descobrirem a homossexualidade do filho(a) ficam morrendo de medo que seu filho(a) se transforme naquilo em que eles sempre foram estimulados, pela sociedade, a rejeitar: um gay ou uma lésbica.

A partir daí, os mais diferentes comportamentos podem surgir. Os pais podem se sentir culpados por terem criado seu filho de maneira "errada" (frase típica: "onde foi que eu errei?"). Podem também ficar decepcionados (frase típica: "mas você não podia ser 'normal'?"), sentirem-se ofendidos ("porque você está fazendo isso comigo?") ou até mesmo tudo isso junto! Nesse momento, o mais importante é entender os seus pais. Alguém poderia dizer: "se eles não me entendem, porque eu tenho que entendê-los?". Ora, uma vez que o que passa na cabeça dos seus pais deixa de ser um mistério, você poderá agir com mais independência. Será possível, por exemplo, avaliar se o que seus pais querem que você faça trará bons resultados ou não. Nesse caso, "bons resultados" significa se sentir bem, independentemente da sua orientação sexual.

Voltando aos seus pais, se eles estão se sentindo culpados, decepcionados ou ofendidos, talvez estejam precisando de ajuda psicológica. Sugira isso a eles, delicadamente. É comum um pai ou uma mãe achar que o filho(a) tem problemas, quando na verdade são eles que têm dificuldade em aceitar e homossexualidade do filho(a). Existe até um nome para isso: transferência.


Quando a ida a um psicólogo é interessante

Antes de qualquer coisa, é importante explicar a diferença entre psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. Psicólogos e psiquiatras são muito parecidos, apesar dos psiquiatras serem formados em medicina e os psicólogos não. Ambos cuidam da saúde da mente, porém com uma diferença. Caso haja alguma doença mental, o psiquiatra pode tratar o paciente com remédios, ao contrário dos psicólogos. Ser homossexual, entretanto, não é motivo para consultar um psicólogo ou um psiquiatra (a não ser em casos de depressão).

O que pode ser interessante é a consulta a um psicanalista. Esse profissional ajuda a pessoa a analisar a própria vida e dessa forma buscar, ela mesma, caminhos para ser mais feliz. É importante observar que consultar um psicanalista não significa de forma alguma que você está doente. Logo, se você está disposto(a) a analisar sua própria vida, e se sente bem sendo ajudado por um profissional, pode ser interessante consultar um psicanalista.

Quando a ida a um psicólogo, psiquiatra ou psicanalista é um problema

Ana Bock, presidente do Conselho Federal de Psicologia, é autora da resolução que proíbe os psicólogos brasileiros de tratar a homossexualidade como doença. Dessa forma, não existe a possibilidade de "curar" gays e lésbicas (veja o texto da Resolução clicando aqui).

Apesar disso, ainda existe uma corrente dentro da psicologia que acredita que para uma pessoa ser feliz existem certas condições pré-definidas. Essas condições são: ter um bom emprego, ganhar bem, ser heterossexual e estar casado. Trata-se, no entanto, de um absurdo, pois só uma pequena parcela da população mundial seria feliz. Quem não se encaixasse nessas condições estaria fadado à eterna infelicidade? Claro que não! Todos nós temos o direito à felicidade. Não importa o quanto você ganha ou com quem voc6e gosta de transar.

Se seus pais querem que você vá a um profissional como esse, tome muito cuidado. Ele pode tentar forçar você a mudar sua orientação sexual. Portanto, fique esperto! A única pessoa no mundo que tem condições de saber, ao certo, sua orientação sexual é você mesmo!

Ser homossexual ou não, funciona da mesma maneira que a cor dos seus olhos. Se você tem olhos castanhos, ninguém poderá transformá-los em azuis. Até é possível usar uma lente da cor azul, mas seus olhos continuarão sendo castanhos.
 

"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." Albert Einstein

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